A organização conjunta do Campeonato do Mundo de futebol de 2030 por Marrocos, Portugal e Espanha está a colocar o país africano sob forte escrutínio internacional, depois de denúncias de abates em massa de cães vadios sempre que acolhe grandes eventos desportivos. Um relatório de 91 páginas entregue à FIFA reúne provas de capturas, envenenamentos e execuções de animais, práticas que organizações de defesa dos direitos dos animais dizem persistir apesar dos alertas formais.
De acordo com a ‘Euronews’, sempre que Marrocos recebe competições internacionais, as autoridades locais intensificam a remoção de cães das ruas, recorrendo a métodos considerados cruéis por ativistas e testemunhas no terreno. O fenómeno foi novamente denunciado durante a preparação para a Taça Africana das Nações de 2025, alimentando receios de que o mesmo padrão se repita na corrida ao Mundial de 2030.
Carrinhas, capturas e matadouros improvisados
As denúncias descrevem operações regulares em várias cidades anfitriãs, com cães capturados por equipas municipais e transportados em carrinhas para instalações afastadas dos centros urbanos. Algumas testemunhas relatam a existência de matadouros improvisados nos arredores de zonas turísticas, onde os animais são mortos a tiro, por envenenamento ou deixados a morrer à fome.
Segundo estimativas recolhidas por residentes e ativistas, entre o verão passado e a realização da Taça Africana das Nações poderão ter sido mortos entre três e quatro milhões de cães nas cidades envolvidas. A Coligação Internacional para o Bem-Estar e Proteção dos Animais afirma que estas práticas seguem um padrão repetido sempre que o país se prepara para receber eventos de grande visibilidade internacional.
Um relatório entregue à FIFA
A organização apresentou à FIFA um dossier detalhado, com fotografias e testemunhos que documentam casos de fuzilamento, envenenamento e queima de animais vivos. Embora a FIFA não emita ordens diretas aos países anfitriões, a ONG acusa o organismo de permitir que estas situações persistam ao não impor exigências claras em matéria de bem-estar animal.
A FIFA confirmou ter contactado a Federação Marroquina de Futebol após a divulgação de denúncias na imprensa internacional, mas a embaixada de Marrocos em Londres rejeitou as acusações, classificando-as como infundadas. Ainda assim, investigações jornalísticas indicam a compra recente de munições por parte de autoridades locais para lidar com a população de cães vadios, bem como relatos de crianças expostas a cenas de violência nas ruas, segundo a ‘Euronews’.
Uma lei controversa e críticas internacionais
Em 2025, Marrocos propôs legislação que pune quem matar ou ferir intencionalmente animais vadios, mas que também criminaliza quem os alimente ou acolha. Ativistas consideram a lei contraditória, por penalizar atos básicos de compaixão ao mesmo tempo que não impede os abates em larga escala.
A Organização Mundial de Saúde reconhece que os cães vadios representam um risco na transmissão da raiva, mas sublinha que o abate não é uma solução eficaz. Especialistas alertam para o chamado “efeito de vácuo”, em que a eliminação de animais leva ao rápido surgimento de novas populações não vacinadas, agravando o problema de saúde pública.
O peso do Mundial de 2030
O Campeonato do Mundo de 2030 será histórico, ao decorrer em três continentes, com jogos na Europa, em Portugal e Espanha, em África, em Marrocos, e na América do Sul, na Argentina, Paraguai e Uruguai. Embora ainda não esteja decidido o palco da final, Casablanca surge como uma das hipóteses, com a construção prevista do Grande Estádio Hassan III.
Com quatro anos pela frente até ao torneio, organizações internacionais defendem que a FIFA tem tempo suficiente para exigir garantias claras a Marrocos, evitando que a preparação para o Mundial resulte num novo massacre de animais, como alegadamente aconteceu antes da Taça Africana das Nações.













